Sentimento humano tratado como “variação exótica” ou “raridade clínica” ganhou um nome curioso que o define como patologia. Essa invenção tem sido chamada de “zelofilia”, termo criado para definir a “excitação sexual provocada pelo ciúme”.
Embora a expressão não exista formalmente na língua portuguesa, a zelofilia seria uma suposta parafilia. Ou seja, um padrão de interesse sexual intenso e persistente por objetos, situações ou alvos atípicos.
Assim como diversos modismos considerados pseudoacadêmicos, a nova palavra já circula nas redes sociais como algo digno de investigação científica, para o desespero de alguns profissionais.
Isso porque o hábito de transformar sentimentos em “doenças” tem incomodado uma parcela da classe médica e terapêutica, visto que os fetiches existem desde que o mundo é mundo.
Essa necessidade ou ânsia em nomear variações emocionais como fenômenos clínicos, aliás, virou tema de debate na academia. João Borzino, médico e terapeuta sexual, é um dos que refuta esse modismo. Ele avalia a zelofilia como algo além de uma simples curiosidade bizarra e considera o termo uma “falência do pensamento crítico”.
De acordo com João, zelofilia é um termo que não consta em nenhum manual diagnóstico reconhecido internacionalmente, como o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) ou a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças), e, além de não existir, não deveria ser levado a sério.
“Não é considerado uma parafilia oficial, tampouco tem base empírica sólida. Seu uso emergiu principalmente de fóruns on-line e espaços que misturam entretenimento com psicologia pop. A ideia central gira em torno da excitação sexual gerada pela experiência ou indução do ciúme — seja sentir ciúmes ou provocar ciúmes no(a) parceiro(a)”, declara.
João Borzino afirma que, basicamente, o termo tenta representar um tipo de fetiche emocional. “O ciúme é, acima de tudo, uma resposta emocional profundamente enraizada em nossa biologia evolutiva. Ele está ligado à proteção do vínculo afetivo e à percepção (real ou imaginada) de ameaça à exclusividade relacional. Patologizá-lo, sem critério, é não apenas um erro conceitual — é uma traição à própria ciência psicológica.”
“Antes da zelofilia, já assistimos à multiplicação de rótulos para qualquer traço de personalidade ou reação emocional: a timidez virou ‘fobia social’, a impulsividade virou ‘TDAH adulto’, a tristeza tornou-se ‘depressão’ sem critério, e agora, o ciúme vira ‘zelofilia’. O problema não é reconhecer que certos padrões podem, sim, ser excessivos ou disfuncionais. O problema é que o diagnóstico deixou de ser resultado de avaliação profissional criteriosa e passou a ser um tipo de identidade assumida por autodeclaração”, ressalta.
Conforme o terapeuta, os termos criados e autodeclarados assumiram uma função perigosa na vida das pessoas que os adotam como se fossem portadores de sérias patologias.
“Com isso, substituímos a responsabilidade pessoal pela vitimização, a reflexão pelo slogan. Tudo vira ‘sintoma’. Tudo exige acolhimento incondicional — mesmo quando seria mais honesto oferecer limites e direcionamento. A ciência psicológica é, cada vez mais, invocada como escudo ideológico, não como instrumento de compreensão do ser humano”, acrescenta.
O médico explica que negar a zelofilia, ou outras nomenclaturas, não é negar que esses sentimentos existam. “Nem de dizer que todo sofrimento é ‘mimimi’. O que está em jogo aqui é outro ponto: a confusão entre nomear e compreender. Dar nome a algo não é o mesmo que o entender. Transformar emoções em rótulos clínicos, sem base científica, não ajuda ninguém. Ao contrário, obscurece a realidade, cria categorias artificiais e afasta as pessoas de soluções reais.”
Ele destaca que a sociedade deveria promover um retorno à maturidade emocional e intelectual em vez de continuar expandindo o vocabulário do “vitimismo disfarçado de ciência”. “Isso inclui reconhecer que emoções como o ciúme são parte do repertório humano normal. Que o desconforto também é uma ferramenta de crescimento. E que a saúde mental não se constrói fugindo da dor, mas aprendendo a interpretá-la com responsabilidade”, finaliza.
Créditos: Midiamax