Cerca de 30 pessoas participaram, na manhã deste domingo (22), da manifestação Caminhada Pela Vida Animal, realizada em Campo Grande. Organizado pelo Sindivet-MS (Sindicato dos Médicos-Veterinários de Mato Grosso do Sul) e LuteVet, o ato reuniu médicos-veterinários, protetores independentes, integrantes de ONGs e apoiadores da causa animal na Praça Ary Coelho.
A mobilização relembrou a morte brutal do cão Orelha, em Florianópolis (SC), mas, segundo os participantes, o objetivo foi denunciar que casos de maus-tratos também são recorrentes em Mato Grosso do Sul e cobrar mudanças estruturais na política pública de proteção animal.
Presidente do sindicato e médica-veterinária, Natália Córdoba, de 29 anos, afirmou que o ato busca dar visibilidade a uma realidade frequente. “Esse ato é em prol do cão Orelha, que foi morto brutalmente em Florianópolis, porém a gente não enxerga como um caso isolado. Isso acontece frequentemente. Por exemplo, aqui no Estado, recentemente, eu ouvi sobre uma cadelinha, ouvi também um homem carregando, puxando um cão por uma moto. Então, não são casos isolados. Isso é o que a gente sabe, né? E pode ter muitas coisas que a gente não sabe que está acontecendo”, declarou.
Ela destacou que a mobilização ocorreu de forma articulada em todo o país. “Sim, é a nível nacional. Nós somos do sindicato Sindivet, que é um braço do LuteVet, que é um movimento nacional. Estamos organizando a nível nacional”, explicou.
Sobre as reivindicações, Natália reforçou a necessidade de punições mais efetivas. “A gente está fazendo essa luta contra impunidade, de pessoas que cometem maus-tratos com os animais. Às vezes acontece [de] a pessoa ser presa e é solta logo em seguida. E essas pessoas têm que sofrer a punição. Têm que sofrer a consequência pelos maus-tratos, porque é uma vida, qualquer tipo de vida importa”, afirmou.
Integrante do projeto Luspet, Flávia Pieretti, de 48 anos, ressaltou o sentimento de esgotamento entre protetores. “A importância é tornar cada vez mais pública a injustiça, o descaso, o abandono sobre essa causa animal. Muitos animais são esquecidos, largados nas ruas e ninguém, ninguém tem feito algo de fato por isso. Estamos pedindo justiça, pedindo que a sociedade, o Poder Público, assuma essa responsabilidade. As protetoras de animais já estão cansadas, doentes de tanto acolher animais. Precisamos juntos nos unir por essa causa”, disse.
Protetora há 15 anos, a jornalista Yara Dosso, de 41 anos, defendeu que a pauta seja trabalhada também nas escolas. “Eu sou protetora de animais há 15 anos, tenho um filho de 7 anos que nasceu com uma casa cheia de cachorros, e eu acho muito importante essa mobilização. Até pra gente pedir pro Poder Público ajudar os animais, ajudarem as ONGs que tanto precisam. Colocar na pauta das escolas as crianças desde cedo, aprender a amar, respeitar os animais como seres vivos. Somos poucos, mas os poucos também fazem a diferença. Muito importante a gente não se calar”, afirmou.
Da ONG Fiel Amigo, Laura Cristina Garcia Brito, de 54 anos, relatou a rotina de abandono enfrentada pelas entidades. “A importância de estar aqui nessa caminhada hoje é pra pedir justiça não só pelo Orelha, como por todos os animais que sofreram, que sofrem e que ainda vão sofrer nas mãos dos desumanos com abandono e maus-tratos. É muito importante que toda a população apoie essa caminhada, apoie a causa animal”, declarou.
Protetora desde os 13 anos, ela afirmou que o problema se agravou. “Eu sou protetora desde os 13 anos de idade e tenho 54. E, infelizmente, o abandono e maus-tratos só aumentam na nossa Capital e em todo o Estado. É o tempo todo, todos os dias, o pessoal abandonando animais, principalmente em estado grave. E nós não temos um centro de acolhimento de passagem em Campo Grande, nós não temos um hospital público veterinário, nós não temos políticas públicas que realmente punam quem comete os crimes de abandono e maus tratos. É uma tristeza”, relatou.

Outro ponto central da manifestação foi o pedido de auditoria e mais transparência no CCZ (Centro de Controle de Zoonoses). O diretor de cinema e TV Aaron Torres afirmou que denunciou ao Ministério Público possíveis irregularidades após presenciar situações que classificou como graves.
“No dia 20 de janeiro, eu e uma protetora independente fomos levar um gato para ser castrado no CCZ e verificamos uma alta rotatividade de pessoas levando seus cachorros para serem descartados no CCZ, sob suposta alegação de leishmaniose. Já na segunda pessoa que chegou, havia uma cachorrinha claramente saudável. Ficamos chocados e pedimos para adotar essa cachorrinha. Ela foi abatida em menos de 24 horas”, relatou.
Ele questiona o cumprimento dos protocolos legais. “A lei determina que, quando a pessoa chega com um laudo alegando leishmaniose, esse documento precisa ser comprovado pelo próprio CCZ por meio de um teste independente, e um funcionário deve emitir um laudo a respeito. Como a cachorrinha foi abatida em menos de 24 horas, não haveria tempo para realizar um novo exame e emitir outro laudo nesse período”, afirmou.
Aaron também relatou o caso de um cachorro atropelado que, segundo ele, seria encaminhado para abate. “Era um cachorro atropelado, que merecia cuidados. Ele foi arremessado com tanta força que a coluna ficou sobreposta. Conseguimos resgatar esse cachorro, que é o Lucas. Já a Kika, infelizmente, a cachorrinha abatida no dia 20 de janeiro, não teve a mesma chance”, disse.
O grupo afirma ter protocolado denúncia no Ministério Público e na Decat (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Ambientais), além de ingressar com ação pedindo auditoria independente no CCZ. “O CCZ sempre se negou a prestar contas à sociedade. Eles não estão acima da lei nem acima da obrigação de transparência. É isso que demandamos: uma auditoria independente”, declarou.
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