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Entre ponteiros e memórias, relógios atravessam gerações e mantêm vivas histórias de pais e filhos

Por Higor Alexandre | 08/08/2026 15:26

Um relógio pode marcar as horas, mas, para muitas famílias, ele também marca momentos. Pode ser o presente recebido na formatura, o objeto guardado pelo pai durante anos ou aquela peça que um dia deixa o pulso de uma geração para passar ao de outra. Em meio a celulares e relógios inteligentes cada vez mais tecnológicos, os modelos tradicionais continuam carregando algo que não cabe em números: histórias.

Mesmo com a proximidade do Dia dos Pais, a procura por relógios como opção de presente não cresceu de maneira significativa neste ano. Ainda assim, para quem trabalha há décadas com essas peças, o movimento do mercado não diminui o valor afetivo que elas representam.

No Centro de Campo Grande, relojoeiros que acompanham essa história há décadas relatam que muitos clientes chegam às oficinas não apenas com um relógio nas mãos, mas com uma lembrança de família que desejam preservar.

É o caso de Simone da Silva Araújo, relojoeira e proprietária de uma oficina de conserto e restauração de relógios, que atua há 51 anos no comércio da Capital. Ao longo desse tempo, ela se acostumou a receber peças que carregam muito mais do que engrenagens e ponteiros.

Segundo Simone, é comum que clientes procurem o serviço para recuperar relógios herdados de familiares ou peças que ganharam em momentos importantes da vida.

“Tem bastante valor afetivo nos relógios. Às vezes é algo de formatura ou aquele famoso ‘meu pai me deu e vou guardar para o meu filho’. É bem comum isso. As pessoas colocam bastante valor afetivo e o relógio é algo bem sugestivo. Além da parte funcional, ele ainda traz essa memória”, conta.

A relação entre relógios e lembranças também faz parte da rotina de Paulo Pereira Leite Filho, que acumula quase cinco décadas de profissão. Acostumado a restaurar peças antigas, ele explica que o trabalho muitas vezes significa devolver às famílias algo que representa uma parte de sua própria história.

Ao longo da carreira, Paulo acompanhou as transformações do setor: começou trabalhando com relógios manuais, passou pelos automáticos e viu chegar os modelos movidos a pilha e bateria.

“Eu comecei lá na época do manual, depois os automáticos, depois os de geração a pilhas e bateria. Eu achei que iriam acabar com esses modelos mais tradicionais, mas as marcas nacionais, que fabricam esses modelos, investiram mais e os tradicionais voltaram a cair no gosto. A demanda continua muito forte, apenas com o problema de mão de obra, que começou a ficar ruim”, explica.

E se, por um período, parecia que os celulares e os smartwatches poderiam fazer os relógios tradicionais desaparecerem, o tempo mostrou justamente o contrário.

Mesmo com a movimentação abaixo do esperado para o Dia dos Pais, os modelos clássicos continuam despertando o interesse dos consumidores, principalmente daqueles que procuram peças mais discretas, menores e atemporais.

O empresário Cezar Nogueira conta que o setor chegou a acreditar que os relógios tradicionais perderiam espaço entre 2026 e 2030. A previsão, no entanto, não se confirmou.

“Há bastante procura pelos relógios tradicionais. Nós achávamos que essa procura ia acabar entre 2026 e 2030, mas eles ressuscitaram. Embora os smartwatches sejam mais tecnológicos e praticamente todo mundo tenha um, a preferência agora está sendo pelos modelos tradicionais e com caixas menores”, relata.

Para ele, o interesse não está apenas relacionado ao uso do acessório. O colecionismo e a valorização de peças mecânicas e clássicas também ajudaram a movimentar o mercado.

“Aumentou bastante a procura de modo geral, porque as pessoas começaram a colecionar”, acrescenta.

Enquanto os relógios tradicionais seguem conquistando espaço, os smartwatches já não apresentam o mesmo ritmo de vendas observado nos últimos anos.

Para Hugo Arthemar, gerente de uma loja de venda de celulares e relógios no Centro de Campo Grande, o movimento para o Dia dos Pais ainda está abaixo do esperado. A esperança é de que as vendas aumentem nos próximos dias, já que muitos brasileiros costumam deixar as compras para a última hora.

“A demanda no Dia dos Pais é bem inferior à de outras datas festivas. Esperamos que o mercado aqueça nesses próximos dias, já que o brasileiro geralmente deixa pra última hora. Acredito muito que o filho geralmente busca o relógio tradicional para presentear o pai e deixa o mais tecnológico para uso próprio, então esse é o nosso público de maior procura”, explica.

Mas não são apenas os relógios novos que contam essa história.

Nas relojoarias, cresce também a procura por restaurações de peças antigas. Em vez de escolher um presente novo, algumas famílias preferem recuperar aquele relógio que pertenceu ao pai, ao avô ou a outro familiar.

É como se, ao colocar a peça novamente para funcionar, também fosse possível fazer o tempo voltar por alguns instantes.

Simone conta que o serviço de pós-venda e restauração de relógios de família costuma ganhar força nesta época do ano. Muitos clientes aproveitam o Dia dos Pais para devolver vida a uma peça antiga e transformá-la novamente em presente.

Neste ano, porém, esse movimento ainda não apareceu com a mesma intensidade dos períodos anteriores.

“Fazemos muito o pós-venda e a restauração de relógios de família. Geralmente, nesta época, o movimento já está bem aquecido porque as pessoas não só compram, mas também querem restaurar um relógio para presentear. Neste ano, ainda não fomos surpreendidos com esse movimento”, afirma.

Entre engrenagens, mostradores e ponteiros, os profissionais que dedicaram décadas à relojoaria parecem conhecer uma verdade que vai além do mercado: alguns objetos não envelhecem porque continuam sendo lembrados.

Um relógio pode deixar de ser usado por um tempo, ficar guardado em uma gaveta ou precisar de uma restauração. Mas, quando volta a funcionar, também pode trazer de volta uma história.

E talvez seja justamente por isso que, mesmo diante de toda a tecnologia disponível, os relógios tradicionais ainda encontrem espaço no pulso — e, principalmente, no coração — de pais e filhos.

Porque, no fim das contas, algumas peças não servem apenas para contar o tempo. Elas ajudam a lembrar quem viveu aquele tempo.