A presença de animais silvestres em áreas urbanas de Mato Grosso do Sul não é novidade. Há muito tempo, moradores de outras regiões do país associam o Estado à circulação desses animais pelas ruas. E, com registros cada vez mais frequentes, essa percepção ganha força — embora a chamada “invasão” seja apenas parcialmente verdadeira.
Isso porque é necessário refletir sobre quem, de fato, está ocupando o território de quem. A aproximação dos animais com os centros urbanos vai muito além da simples proximidade com a natureza.
Nos últimos 30 dias, diversas espécies foram vistas em cidades sul-mato-grossenses: onças, quatis, antas, tucanos e tamanduás, entre outros. Em algumas situações, esses encontros encantam moradores e turistas. Em outras, porém, terminam em tragédia — como o caso do caseiro morto por uma onça no Pantanal ou os frequentes atropelamentos de quatis.
Segundo o biólogo Lui Henrique Valverde, o avanço das cidades aliado ao desmatamento tem provocado a fragmentação dos habitats naturais. “Com isso, muitos animais perdem acesso a alimento, abrigo e rotas de deslocamento”, explica.
Ele ressalta que a presença desses animais nas cidades não ocorre por curiosidade, mas por necessidade de sobrevivência. Com menos espaço disponível, eles acabam encontrando alimento com mais facilidade no ambiente urbano, seja em lixo, árvores frutíferas, ração deixada nas calçadas ou até animais domésticos. Em alguns casos, há ainda moradores que oferecem comida, o que contribui para mudanças no comportamento da fauna.
Mudanças nos hábitos e no comportamento
Essa convivência forçada tem impactos diretos. Animais que antes evitavam humanos passam a perder o medo, alteram sua alimentação e deixam de cumprir funções importantes no equilíbrio ecológico.
Para o biólogo, orientar a população a não alimentar animais silvestres é importante, mas insuficiente. Ele defende uma abordagem mais ampla, que leve em conta o modelo de expansão urbana e seus efeitos sobre os ecossistemas.
Entre as soluções, ele destaca a necessidade de políticas públicas, como planejamento urbano com corredores ecológicos, preservação de áreas naturais, manejo adequado de resíduos, monitoramento da fauna, educação ambiental e fiscalização mais rigorosa.
Além disso, movimentos socioambientais e iniciativas comunitárias têm papel fundamental ao pressionar o poder público, produzir conhecimento local e promover uma relação mais equilibrada com a natureza.
Onças: perigosas e sem espaço
Em Corumbá, uma onça-pintada tem sido vista com frequência nos arredores de uma residência há cerca de um ano. O animal já retornou diversas vezes ao local, tendo matado uma cadela e atacado galinhas. Monitorada pela Polícia Militar Ambiental, a onça deverá ser capturada, examinada e posteriormente solta em outra área.
Também recentemente, um engenheiro agrônomo de Campo Grande se deparou com uma onça no Pantanal, em Miranda. O animal o encarou por alguns instantes antes de recuar para a mata. O homem chegou a descer do veículo para tentar registrar a cena.
Outro avistamento ocorreu nas proximidades do Rio Miranda, na região conhecida como Touro Morto — local onde, no ano passado, um caseiro foi atacado e morto por uma onça. O encontro reacendeu o alerta na região.
A circulação desses animais não respeita fronteiras. No Paraguai, a cerca de 30 km de Ponta Porã, moradores também registraram a presença de uma onça próxima a residências, aumentando a preocupação da população.
Antas nas ruas da Capital
Em Campo Grande, a presença de antas também tem se tornado comum. No início de abril, uma delas foi vista circulando em um condomínio de alto padrão. O animal demonstrou pouca intimidade com a presença humana, aproximando-se e depois se afastando.
Outros registros recentes mostram antas caminhando por bairros como Chácara Cachoeira e em residenciais na Avenida Três Barras, muitas vezes durante a madrugada.
Resgates e encontros curiosos
Outros animais também têm aparecido em áreas urbanas. Em Ladário, um tamanduá-mirim precisou ser resgatado após subir em uma árvore e não conseguir descer por medo de cães.
Já em Corumbá, um tucano foi resgatado após ficar preso em uma linha de pipa no alto de uma palmeira. No mesmo dia, bombeiros retiraram um gambá que havia entrado em um comércio, sendo posteriormente devolvido à natureza sem ferimentos.
Em Inocência, um episódio curioso chamou atenção: um tucano se aproximou de um morador que tomava tereré, bebeu água e chegou a experimentar pão, demonstrando adaptação ao ambiente urbano.
A triste realidade dos quatis
Nem todos os encontros têm finais felizes. No bairro Silvia Regina, em Campo Grande, a morte de um quati atropelado expôs uma situação recorrente. Após o acidente, outros animais da mesma espécie permaneceram próximos ao corpo, em um comportamento que chamou atenção dos moradores.
Na região, grupos de quatis frequentemente saem da área de mata em busca de alimento nas lixeiras, atravessando ruas movimentadas. Há anos, moradores pedem a instalação de redutores de velocidade para evitar atropelamentos, que também vitimam outras espécies como cotias, lagartos, macacos e aves.